Trem para longe daqui

Quando você desceu do trem meu coração saiu pela boa como se fosse a primeira vez que eu te visse em anos. E era exatamente isso. Praga, Berlim, Moscou e todas as cidades que eu sonhava de moleque em conhecer e envelhecer sendo um fotógrafo marginal e criticado com um olhar diferente de todos.

Mas sim, muito mais linda e agora toda européia e pura atitude. Foi bonito e caloroso e com prazo de validade. Continua lendo, você vai entender.

No meu apartamento com as fotos na parede, de filmes que eu vi, cantores que eu ouvi e lugares que você passou. Todos os seus postais.

Cozinhei pra você e consegui impressionar teu novo paladar da europa. Andei aprendendo uns truques novos só pra hoje, pq eu sei que meu tempo é curto. Agora volta pra estação e espera sua família no horário que você havia mentido, vai.

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Adorei os copos roubados que me trouxe. sempre lembro da história que inventou pra que eles parececem mais cool do que deveriam.

To passando de novo na frente da sua casa só pra ter certeza de que finalmente você entrou naquele trem de volta e que não vo mais cruzar com você na rua de madrugada ou tentar ser seu programa de domingo.

E quando achar esse rabisco no seu livro de viagem, me manda mais um postal. To te esperando pra outro dia.

 

 

And as the moon fades

One more night gone, only twenty more days

But I will see you again

I will see you again a long time from now

Sabonetes

tenho o costume de sempre falar “aprendi que” e é verdade. há dois meses muita coisa mudou e eu aprendi a contar os sabonetes.

desde pequeno, quando você toma banho o sabonete vai diminuindo, diminuindo ate sumir e você acha que ele não vai durar até o proximo banho,mas vem a surpresa de um sabonete novo, pronto, cheiroso, pronto pra começar a diminuir e diminuir ate outro tomar seu lugar, sem você saber como. ou saber sim. alguem sempre trocou. ate alguns meses atras, quando isso nao aconteceu e eu tive que começar minha propria contagem, a partir do 1.

fazem 5 dias que fiquei mais velho, de um jeito totalmente diferente de outros anos e como eu desejo que seja sempre, diferente. ganhei 4 sabonetes. nao sei se isso quer dizer que as pessoas gostam de me ver limpo ou estão apenas incentivando minha conta, mas torço para que seja a segunda opção.

eu aprendi nesse ultimo ano, e mais ainda, nesses ultimos dois meses, que tudo pode ser melhor. a ruina leva a mudança. mas eu nao estava na ruina, longe disso. mas certas coisas ruíram. amei tanto alguem que é dificil ate de descrever, e foi preciso viver tudo de novo pra saber como é melhor deixar tudo como está agora e ver que só assim, só como foi feito, poderia chegar aonde eu estou. e por isso eu agradeço, e vou sempre cuidar de longe com carinho, como prometi.

aprendi também que a delicia de nao fazer nada, é renovadora. mas um ‘fazer nada’ absoluto. sem tv, sem compromisso, sem preocupação, sem aflição. apenas objetivos. “dolce far niente”.

quero aprender a fazer pratos de outro país em outro país, quero viver de mochila e câmera, quero aprender a me virar em outro idioma. quero dizer “eu aprendi” muitas vezes mais.

Essa relação decadente

Há tempos você não me visitava. Não passava tardes a fio comigo naquele quarto de cortinas fechadas, pra que o sol não entrasse e levasse embora aquele friozinho que eu tentava preservar das manhãs do final do verão. As vezes na cozinha enquanto eu mirabolava novas receitas e me fazia de cobaia dos meus temperos. As vezes nas corridas dos fins de tarde no meio de uma música qualquer. Por falar em música, acho que até agora foi nossa melhor companhia. Descobri umas que já conhecia, mas você mostrou o quanto eram geniais. Descrobri que sem você esse meu novo hobby não vai pra frente. Lembro da última vez que nos vimos. Eu tava pela madrugada aos papos de copo com uma velha, velha amiga. Te vi pelo fundo do copo e notei que era um jeito ótimo de te encontrar. Tudo fluiu como numa psicografia. Descobri também que fazer tudo isso com mais uma pessoa pode ser legal e até com direito a promessas de futuro europeu-literário. Ontem ouvimos aquele samba juntos e saiu tudo como eu queria. Apesar dos meses que você me evitava, consegui te achar finalmente. O seu fevereiro foi quando descobri que podia fazer tudo isso. Tinha todos os motivos e sentimentos pra alimentar essa nossa relação e vi todos eles irem embora e serem tomados por uma felicidade que chegou inesperada. Foi quando notei que tudo que eu disse, tudo que conversamos, aconteceu do avesso. Não encenei o que vinha ensaiando, matei aquele personagem noir que eu sonhava ser e transformava minhas histórias em noitadas cinematográficas, e até parei de esperar pela chuva. Ter essa conversa com você agora só me faz pensar quando vou te ver novamente. Sei que ta difícil, ando sem tempo, mas vamos marcar uma cervejinha?

Enredo

Foi se apaixonar logo por ela. Ela que era paixão de todos. Virava todas as cabeças na subida do morro e nos ensaios da escola era destaque. Se viam pelos becos nas noites sem lua e ninguem nunca desconfiou.
Típico malandro. Era o que ela achava. Chamava de canalha sempre que aprontava e ele gostava som que tinha. Ela sempre voltava.

Escreveu pra ela um samba pra cada desculpa. Um em especial ela adorava, talvez sem entender, mas sabia que era o mais especial. Sempre que ele cantava debaixo da janela era dez em todas as categorias, podia ouvir até bateria do seu coração.

‘Desclassifiquei o amor de tantas alegrias’
ele dizia choroso. Ela sempre sorria, e aquele sorriso era seu troféu, sua dispersão, desfile campeão.

Sobre voces, tus, alcools e verbos mal conjugados.

ES – sábado, 21.00h
4 cervejas e duas taças de vinho branco depois.

Sobre você e sobre tu

Sobre você eu passo os dias falando, escrevendo e contando. Bebendo, comendo, curtindo e perdendo noites. Noites que eu perco com você e as vezes até ganho uma esmola, uma amostra, um ‘sossega que isso não é pra ti’. Pra ti. Pra mim.

Tu vai ver que isso não é sempre. Não hoje nem amanhã. Tu vai vir e ver que o ontem vai se repetir se Eu não fizer nada pra mudar. Porque se depender de ti, e sim, eu disse ti, tu, você e quem mais interessar, que hoje é nossa última chance.

Eu chamo você, te chamo e chamo. Já gritei teu nome na rua de madrugada e acabei numa calçada que me acolheu como a um velho amigo. Tu é pra sempre e sabe disso. Você sabe mais que ninguém que o meu alguém é teu e ninguem toma isso de ti.

Seja você quem for, amanhã tu vai ver que é pra mim e não pra ti que isso vai fazer mais falta.

RS – sábado, 21.54h
2 taças de vinho e uma (s) dose de whiky depois.

Sobre o meu português errado

ah essa mania de beber e sair por aí fazendo e pensando coisas, deveria ficar só quieta pra não ficar colhendo consequências depois mas daí eu paro nessa janela que eu to e penso: QUE SE FODA. se fodam todos vocês e seus conselhos fajutos a respeito do tipinho de vida que vocês acham que alguém deve levar. Não quero saber. Quero é mais escrever esse texto bêbada comletras digitadas erradas pra vocês virem aqui ler e depois pensar: nossa coitada dessa garota e depois irem dormir nos seus travesseiros limpinhos enquanto eu fico aqui pensando em algum som pra tocar, uma música nova vem surgindo na  minha cabeça é que eu queria escrever um samba.
um samba sem pausas, sem vírgulas que tivesse som de guitarra e voz rouca no fundo que cantasse as saudades que eu sinto de todas as coisas que eu nunca vi e que eu já me lembro e tudo isso assim sem tempo e espaço, sem verbos, odeio esse português bem escrito nunca esqueço quando uma professora metidinha disse que meus textos eram ‘imperfeitos’ e eu respondi com um ‘graças a deus né?’ e agora fico mandando músicas de presente para amigos que estão longe como uma forma de manter um elo que foi formado assim pela distância e que se um dia desaparecer vai levar um pedaço de mim junto e não me perguntem como eu deixei algo assim acontecer, só aconteceu e acontece mesmo quando a gente não procura porque já dizia o poeta é impossível ser feliz sozinho, ser feliz com gente longe é possível? temos que manter eles perto não é mesmo então fica com isso, a música é tua posta junto com teu texto enquanto eu fico aqui sentindo o vento frio batendo no meu rosto e não to usando nenhum vestido pra que o vento faça dele um dom que deus me deu.
Ai quero ser poeta, o deus me faz nascer poeta quando eu acordar amanhã de ressaca?

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Que seja antes minha que de outrem
Quando o vento fez do teu vestido
Um dom que Deus te deu

Guerra e paz

Essa não era bem a minha idéia de reencontro, você sabe. Não deve saber na verdade. Mas aconteceu. Depois de todas as vezes que te mandei embora e você tornava a voltar com um novo perfume.

Acredito no acaso. Pelo menos por agora. Porque isso não podia ter sido planejado por nenhum de nós. Não que eu já não tivesse traçado alguns planos, mas desistido há tempos.

Foi certeiro. Você usou todas as armas letais contra mim. Aquelas impossíveis à qualquer sanidade se manter intacta. Me rendi mais rápido que um covarde num assalto. Quando cheguei você tava ali parada com um sorriso apontado pra mim, na mira, e me acertou. Tudo que eu consegui ver depois foram aqueles malditos sapatos vermelhos desfilando pra lá e pra cá como se o som deles a cada passo fosse tirando um pouquinho de mim. Caí.

Quando abri os olhos de novo, aconteceu tudo mais rápido do que eu esperava. Era você que estava ali pra me socorrer. Olhei direto pros seus olhos e quase fui de novo. Eles eram uma arma das mais poderosas. Já conheci outros que me fizeram perder a guerra também, mas esses merecem outro texto, ou quem sabe um livro.

E você me abraçou. E aí foi nocaute. Seu perfume, um novo e não mais aquele que costumava acabar comigo em antigas batalhas, foi um golpe certeiro. Acenei a bandeira branca.

 

Vírgulas e preposições

Que ironia, você também tem insônia.

Pode me informar as horas?
– 03:19. Problemas pra dormir?
Só os de sempre. E você?
– Ganhei um hoje.
Um brinde então… ?

Falei meu nome.

Prazer.

Ela disse o dela. Era um nome de certinha, daquelas que usava todas as vírgulas e preposições c-o-r-r-e-t-a-m-e-n-t-e. Que tédio. Nome de jornalista engajada e socialmente responsável. Essa ta querendo um marido.

Ensaio

Eu já ensaiei tantas vezes pra te dizer isso que eu poderia montar uma peça. Um monólogo, claro.

Agora que você tá indo, eu percebi que não tem mais espaço pra ensaio. O tempo passou numa velocidade inimaginável e agora já não te vejo nos intervalos bem marcados de tempo como antes.

Sei que ta atrasada, mas deixa eu falar. Depois de todos os nomes que eu te dei e até das declarações fajutas que te fiz, ou ensaiei, claro, agora vou ter que falar. Não, não vou me declarar. Acho que não.

Presta atenção, para de olhar o relógio. Eu não to enrolando.

Eu sei que você vai e volta. Mas não sei exatamente pra onde você vai voltar. Me entende? Eu sei que me entende mesmo sem eu dizer. Tive que te enteder assim, foi ou não foi? Você não falava. Mas seus olhos nunca mentiram pra mim.

Olha, só vou te dizer uma coisa. E uma coisa que nunca ensaiei, porque a gente nunca ta preparado pra essas coisas de despedida, mas você volta né?.

Tchau. Mas volta inteira.

É o efeito que faz

Ta chovendo.

Depois de meses, ta chovendo de novo. Sempre gostei de chuva. Andar sem guarda-chuva, ouvindo só o que me convém. Não to te ouvindo. Fala de novo.

A chuva não cessa. Acho que vai chover até você parar de chorar. Já reparou que sempre que você chora, chove? É um aviso pra mim. Não to emotivo. Quer que eu volte a te tratar daquele jeito? Eu já tinha prometido não te xingar mais po.

Como assim diferente? É eu sei. Acho que é a chuva.

Comida para quem precisa de comida

Minha intenção nesse blog não era falar sobre filmes ou culinaria. Mas depois de assistir Julie&Julia, era impossível não falar dos dois. Quando as coisas que você gosta são mostradas de forma tão bem feita, é impossível não falar sobre, e no meu caso, desde uns dias atrás, escrever aqui.

Por pura ironia, um dos pontos chave do filme, é o blog da Julie. Escrevendo de forma leve e descontraída, ela se desafia a realizar as 524 receitas do livro de Julia Child em 365 dias. O filme dá FOME, é sério!

Quando Julie faz umas bruschettas pro marido, é impossível não morrer de vontade de pegar umas ali do prato. A cara que o marido dela faz comendo aquelas coisas é pura tortura. Eu fui obrigado a pausar o filme, pegar duas fatias de pão e colocar tudo que achei na geladeira com azeite. Ok, não ficou uma pérola gastronômica, mas matou minha fome e a vontade de comer. Não é esse o objetivo? hehe

Já que ninguem vai ler isso por um bom tempo, não vai adiantar eu falar que vo ali abrir uma garrafa de vinho com minha mãe e fritar uns pastéis caseiros né? Sem problemas. Só precisava contar.