Essa relação decadente

Há tempos você não me visitava. Não passava tardes a fio comigo naquele quarto de cortinas fechadas, pra que o sol não entrasse e levasse embora aquele friozinho que eu tentava preservar das manhãs do final do verão. As vezes na cozinha enquanto eu mirabolava novas receitas e me fazia de cobaia dos meus temperos. As vezes nas corridas dos fins de tarde no meio de uma música qualquer. Por falar em música, acho que até agora foi nossa melhor companhia. Descobri umas que já conhecia, mas você mostrou o quanto eram geniais. Descrobri que sem você esse meu novo hobby não vai pra frente. Lembro da última vez que nos vimos. Eu tava pela madrugada aos papos de copo com uma velha, velha amiga. Te vi pelo fundo do copo e notei que era um jeito ótimo de te encontrar. Tudo fluiu como numa psicografia. Descobri também que fazer tudo isso com mais uma pessoa pode ser legal e até com direito a promessas de futuro europeu-literário. Ontem ouvimos aquele samba juntos e saiu tudo como eu queria. Apesar dos meses que você me evitava, consegui te achar finalmente. O seu fevereiro foi quando descobri que podia fazer tudo isso. Tinha todos os motivos e sentimentos pra alimentar essa nossa relação e vi todos eles irem embora e serem tomados por uma felicidade que chegou inesperada. Foi quando notei que tudo que eu disse, tudo que conversamos, aconteceu do avesso. Não encenei o que vinha ensaiando, matei aquele personagem noir que eu sonhava ser e transformava minhas histórias em noitadas cinematográficas, e até parei de esperar pela chuva. Ter essa conversa com você agora só me faz pensar quando vou te ver novamente. Sei que ta difícil, ando sem tempo, mas vamos marcar uma cervejinha?