Vírgulas e preposições

Que ironia, você também tem insônia.

Pode me informar as horas?
– 03:19. Problemas pra dormir?
Só os de sempre. E você?
– Ganhei um hoje.
Um brinde então… ?

Falei meu nome.

Prazer.

Ela disse o dela. Era um nome de certinha, daquelas que usava todas as vírgulas e preposições c-o-r-r-e-t-a-m-e-n-t-e. Que tédio. Nome de jornalista engajada e socialmente responsável. Essa ta querendo um marido.

Ensaio

Eu já ensaiei tantas vezes pra te dizer isso que eu poderia montar uma peça. Um monólogo, claro.

Agora que você tá indo, eu percebi que não tem mais espaço pra ensaio. O tempo passou numa velocidade inimaginável e agora já não te vejo nos intervalos bem marcados de tempo como antes.

Sei que ta atrasada, mas deixa eu falar. Depois de todos os nomes que eu te dei e até das declarações fajutas que te fiz, ou ensaiei, claro, agora vou ter que falar. Não, não vou me declarar. Acho que não.

Presta atenção, para de olhar o relógio. Eu não to enrolando.

Eu sei que você vai e volta. Mas não sei exatamente pra onde você vai voltar. Me entende? Eu sei que me entende mesmo sem eu dizer. Tive que te enteder assim, foi ou não foi? Você não falava. Mas seus olhos nunca mentiram pra mim.

Olha, só vou te dizer uma coisa. E uma coisa que nunca ensaiei, porque a gente nunca ta preparado pra essas coisas de despedida, mas você volta né?.

Tchau. Mas volta inteira.